David Boadella, criador da Biossíntese, iniciou sua jornada na psicoterapia a partir da abordagem bioenergética de Reich, e se refere a ele como o pai das psicoterapias corporais, pois criou o arcabouço teórico para a existência de uma psicologia somática. A Biossíntese tem essa raiz energética na Psicanálise e principalmente na teoria de Reich, e Boadella constantemente se refere a ele, a sua visão teórica e percepção energética. Existiram diversas outras influências mais recentes que ampliaram e deram aporte teórico ao ramo do trabalho energético inserido na Biossíntese (Como Keleman, Moore, e outros), e em um outro texto pretendo me aprofundar neste desenvolvimento. Porém aqui vamos focar nesta raiz Reichiana, e seus efeitos nos escritos e práticas da Biossíntese.
Boadella enfatiza que o conceito de energia é fundamental “para a compreensão de problemas que o cliente traz para a terapia” (Boadella, Concepts of Energy in Therapy) e que existem diferentes níveis de energia, e funções como a respiração e o movimento, expressões emocionais e a conexão interpessoal através da ressonância, além de outros aspectos humanos que estão intrinsecamente ligados ao fluxo energético, e é importante a compreensão deste fluxo energético através do corpo para perceber os pontos saudáveis e os bloqueios do cliente, e também para a utilização apropriada de estratégias de intervenção energética, como o toque terapêutico.
O artigo Concepts of Energy in Therapy (Conceitos de energia na terapia – Boadella) fala de diferentes tipos de energia corporal metabólica, citando primeiro a respiração, que considera ser “de importância central: no metabolismo, na excitação nervosa, na relação com os estados de consciência, com a expressão emocional, e em relação ao tônus muscular.” (tradução livre); depois menciona a energia em relação ao movimento, afirmando que a qualidade do movimento e do tônus muscular tem relação direta com a energia corporal e sua expressão, sendo possível para a terapeuta intervir no fluxo energético do corpo através do toque. Discute posteriormente sobre energia e emoção, sugerindo que as mudanças energéticas associadas à emoção têm características mais físicas e associadas ao metabolismo energético corporal do que associadas à energia sutil.
Neste ponto Boadella diferencia energia física de energia sutil, expandindo apenas o conceito associado à energia metabólica – “se representações internas ocorrem através da transformação da energia metabólica, então conceitos podem conter carga: o cérebro pode ser excitado ou deprimido por pensamentos; assim como o corpo. Então todos os três componentes da emotividade são energéticos: energia impulsiona o sistema nervoso vegetativo; energia é expressa nos aspectos motores da emotividade, quando se move para fora em gestos expressivos, carregando diferentes cargas de tônus; e energia é indispensável nas representações internas dos aspectos cognitivos da emoção”. (tradução livre)
Em termos de energia e emoção, no livro Correntes da Vida Boadella afirma que a emoção tem o poder de mover ou paralisar o corpo, e que a impossibilidade deste fluxo emocional seguir livremente por todo o corpo devido aos diversos bloqueios desenvolvidos ao longo da vida é o que caracteriza a neurose. O fluxo emocional livre e natural é o objetivo da terapia, e corresponderia ao fluxo energético livre de bloqueios.
Um dos pontos de ancoramento da teoria de Boadella é a embriologia. Ele associa o endoderma à metabolização de energia. E explica a associação entre emoção e energia afirmando que “o nível energético de uma pessoa depende da mobilização eficiente da energia, e esse metabolismo é principalmente influenciado pela emoção”. A ideia de que o equilíbrio emocional está associado justamente à harmonia do sistema nervoso vegetativo deriva da teoria de Reich que afirmava a existência de um único tipo de energia, mas com fluxos direcionais diferentes e antitéticos – a corrente da periferia ao centro relacionada ao sistema nervoso simpático associada à contração do sistema (e à sensações de raiva e medo); e a corrente do centro para a periferia associada ao sistema parassimpático associada à expansão (e a emoções que podem ser de relaxamento ou de tristeza).
No livro Correntes da vida Boadella associa os três níveis do corpo áurico (energia sutil) – vital, emocional e mental, às três camadas embrionárias: mesoderma, endoderma e ectoderma, respectivamente. Trazendo a hipótese de que esses três níveis da aura podem surgir a partir das camadas embrionárias, ou que esses três corpos sutis podem ser os organizadores do endoderma, mesoderma e ectoderma.
A partir dessa visão embrionária, Boadella postula uma divisão morfológica do corpo em cabeça (ectoderma), espinha (mesoderma) e abdômen (endoderma), com três pontes que ligam essas regiões: o pescoço, que liga a cabeça à espinha e que regula o fluxo energético entre o ectoderma e o mesoderma – quando este fluxo é interrompido ocorre a dissociação entre pensamento e ação; a garganta que une a cabeça ao abdômen, e as regiões ectodérmica e endodérmica, regulando a integração de pensamento e sentimento; e por último o diafragma, que liga a espinha ao abdômen, fazendo essa ponte entre o mesoderma e o endoderma, e quando muito tensionado quebra a integração entre respiração e movimento.
Nas neuroses estas pontes (pescoço, garganta e diafragma) podem se transformar em anéis de tensão, separando as regiões que deveriam conectar (cabeça, coração e hara) e impedindo o livre fluxo entre elas, e prendendo a maior parte da energia em uma das regiões. Podemos perceber que os sete segmentos corporais da couraça de Reich também separam as diferentes partes do corpo, e essa separação pode ser percebida também em termos de cabeça (segmento ocular e oral), coração (segmento do pescoço, torácico e diafragma) e hara (segmento abdominal e pélvico). Os padrões de bloqueios em cada um desses segmentos vão variar de acordo com cada um dos caráteres.
Boadella afirma que “Uma forma alternativa de analisar as principais estruturas do caráter e seus problemas é vê-los como distúrbios do funcionamento primário dos sete chakras.” Através da percepção e leitura do funcionamento dos chakras, podemos também identificar o caráter e trabalhar as polaridades adequadas para que o cliente possa encontrar equilíbrio, fortalecendo seus recursos e desenvolvendo as polaridades mais fracas.
Em uma entrevista a Liane Zink no VII Congresso Internacional de Biossíntese, Boadella afirma que o trabalho energético no corpo e na psicoterapia é sim científico, e que ele (e outros autores e pesquisadores) provou isso em seus artigos e textos. Freud foi o precursor do uso da energia em termos psicoterápicos, ao utilizar o conceito de libido (energia do prazer). Na visão de Boadella, os conteúdos acessados pelos clientes de Freud quando ele começou a trabalhar com toque e respiração foram mais do que ele conseguia lidar naquele momento, e por isso ele adotou sua técnica do paciente deitado, de olhos fechados, falando em associações livres, pois dessa forma mobilizaria menos energia e daria contenção à intensidade da libido.
Já Reich reafirmou que a libido é a energia física do corpo e que é preciso incluir o corpo no processo terapêutico, falou de prazer e sexualidade e da importância da função do orgasmo. Por ter exposto esse conteúdo (e por sua visão política contra Hitler), Reich acabou hostilizado e suas teorias desacreditadas por muitos. Isso impactou fortemente a forma como a energia no corpo e na terapia vem sendo tratada por muitos desde então – como esoterismo, charlatanismo e com ostracismo. Com autores de renome como Lowen, Keleman e o próprio Boadella trazendo Reich e sua teoria de volta à cena e utilizando-a como arcabouço para o desenvolvimento de novas terapias somáticas, a energia volta a ganhar espaço na psicoterapia. Boadella afirma que o trabalho com a energia do corpo é ciência. Mas que é preciso ter cuidado para não deixar o esoterismo adentrar o meio da psicoterapia, permitindo a entrada do fluxo de energia real do corpo e da mente, e trabalhando com esse fluxo de forma criativa.
Sobre sua teoria e os Campos da Vida que desenvolveu nas últimas décadas, Boadella afirma: “Eu demonstrei como efeitos e processos energéticos estão ocorrendo através de uma gama de dimensões do ser humano, na respiração, no movimento, na emotividade, em relacionamentos, através de imagens, e na meditação. Em Biossíntese nós chamamos essa gama de dimensões de campos da vida. O conceito é sistêmico, pois é multidimensional e multidisciplinar: ele mostra que para poder entender os relacionamentos do organismo com seu ambiente é necessário olhar para vários sistemas, usando uma gama de universos de diálogos, e é necessário ver suas interações mútuas, à medida que estados de nível superior ou inferior afetam uns aos outros. Em todas essas dimensões, o conceito energético é significativo e relevante, mas diferentes aspectos do metabolismo são destacados pelos insights gerados a partir de um determinado nível do sistema. No trabalho terapêutico é possível mover esses campos de vida para cima e para baixo, integrando movimento com a respiração, respiração com sentimento, sentimento com relacionamento, relacionamento com imagens, imagens com valor, e assim por diante. Em todas essas inter-relações, o conceito energético é valioso, específico e cientificamente demonstrativo”. (tradução livre, Concepts of Energy in Therapy)
(Texto baseado em trabalho escrito durante a formação em terapeuta somática em Biossíntese)